POÉTICA DE ESTILHAÇOS: AS IMPLICAÇÕES DO DESCENTRAMENTO DO SUJEITO EM TORQUATO NETO

 

Paulo César Andrade – UNESP

 

Eis-me aqui por dentro; o que captei

fez com que eu perdesse um de meus centros.

(Regis Bonvicino)

 

A questão do sujeito tem sido abordada, nos últimos anos, em vários campos do conhecimento como conseqüência das transformações ocorridas no cerne das formações culturais da modernidade. Com a emergência das sociedades modernas desintegram-se, por um lado, os sistemas filosóficos tradicionais e essencialistas e, por outro, a perda de qualquer sentido de continuidade entre passado, presente e futuro. O sujeito começa a experimentar uma angústia existencial e vive uma profunda crise de identidade, como nos esclarece Claudia de Lima Costa (1997, p.124).

Tal crise reflete um amplo processo de mudanças, ocorridas na segunda metade do século XX, que deslocaram as estruturas e processos das sociedades modernas, “abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social” (Hall, 1998, p. 9).

O termo “indivíduo”, cognato de “indiviso”, significa algo uno, “que não se divide”. Este sentido nos remete à idéia de “permanência do sujeito que se considera contínuo em relação a uma história existencial de si-mesmo” (Jobim, 1995, p. 5). Entretanto o sujeito assentado num centro – como no cogito de Descartes -, quando deslocado do ponto fixo onde está enraizado, torna-se fragmentado, aberto, plural, pois à medida em que sua identidade é atravessada por diferentes divisões e antagonismos sociais, ocorre um descentramento do eu. (Costa, 1997, p.124).

Torquato Neto, poeta atuante no movimento tropicalista e seu desdobramento imediato, o pós-tropicalismo, faz parte da estirpe de artistas que captam e absorvem a complexidade do universo multifacetado da cultura contemporânea. Seus textos, reunidos postumamente na obra Os últimos dias de paupéria,traduzem uma voz em constante transição e revelam a crise de um sujeito sem lugar no mundo, em meio à realidade estilhaçada, marcada pela intensa transformação dos movimentos político-culturais dos anos 60/70.

Torquato ficou conhecido pela fecunda atuação como um dos “teóricos” do tropicalismo. Contudo, o momento de maior radicalização poética verificado em sua trajetória, ocorreu entre 1969 e 1972, no pós-tropicalismo, quando embarca numa viagem pelo experimental, pelo estilhaçamento do corpo e da linguagem, apagando as fronteiras entre arte e vida.

Gauche na vida, o anjo torto pertence à linhagem dos espíritos rebeldes que não tiveram medo de caminhar à beira do abismo nem de mergulhar em seus infernos interiores, como Lautréamont, Baudelaire, Rimbaud, Antonin Artaud e outros anti-heróis solitários. O atormentado lirismo desta fase retoma a tradição da escrita “maldita”, transformando vivências pessoais, obsessões e angústias, em textos originais, onde as propostas de uma poesia como expressão vital não excluem o rigor construtivo.

Caminhando sobre o fio da navalha, Torquato encarna o poeta que abraça a loucura – até à desintegração completa, no suicídio - como forma de rompimento possível com a lógica racionalizante dos sistemas autoritários, como foi o modelo implantado no Brasil, com o regime militar. Esta opção desesperada não foi, para o poeta, somente uma experiência “literária”, como se verifica em tantos movimentos artísticos, mas, sobretudo, uma vivência conturbada, inscrita no diálogo tenso com a realidade. Como nos lembra Heloísa Buarque de Hollanda (1980, p. 69), “a partir da radicalização do uso de drogas e da exacerbação das experiências sensoriais e emocionais, houve, de fato, um sem número de casos de internamento, desintegrações e até suicídios, bem pouco literários”.

Torquato, ao se definir como um homem radical, “ou eu morro ou eu vivo, ou eu morto ou eu transando” (Neto, 1982, p. 348) indicava com precisão o modo de ser de sua geração. Como um anjo torto, viveu intensamente em situação-limite, elegendo a morte como tema estruturador — ou desestruturador — de seus textos e da própria vida, tal como se verifica no poema Cogito.

 

eu sou como eu sou

pronome

pessoal intransferível

do homem que iniciei

na medida do impossível

 

eu sou como eu sou

agora

sem grandes segredos dantes

sem novos secretos dentes

nesta hora

 

eu sou como eu sou

presente

desferrolhado indecente

feito um pedaço de mim

 

eu sou como eu sou vidente

e vivo tranqüilamente

todas as horas do fim

 

Ao estabelecer um diálogo com o pensamento cartesiano, Torquato pretende mostrar a sua verdade, como definição de sua própria existência. A fórmula “Penso, logo existo” é para Descartes, o primeiro princípio da Filosofia, que elege o pensamento e não a presença do mundo como consciência do existir: “Esta proposição eu sou, eu existo é necessariamente verdadeira todas as vezes que a pronuncio ou que a concebo em meu espírito”, conclui o fundador do pensamento racional moderno (apud Japiassu, 1990, p. 51).

Ao contrário, o Cogito proposto por Torquato aponta para a existência desagregada e contraditória, de quem vive no limiar entre o “existo” e o “não existo”. Torquato, para quem o presente não é um ponto fixo, nem lugar seguro, anuncia-se “vidente” do agora e vive “todas as horas do fim”, reforçando a própria consciência sobre a fatalidade da vida e sua opção por situações-limite.

Se o homem da Antigüidade valoriza o passado, os jovens da metade do século XX, a fim de reagir à tirania do passado, à autoridade do presente e demonstrar o desencanto em relação ao futuro, inventam uma “ética e uma estética” que supervaloriza o instante, o “aqui e o agora”. A eternidade como momento presente e o instante como eternidade, ou como dizia Torquato: “hoje é sempre”.

A valorização do agora, além de negação do passado, do presente e do futuro, é uma saída para afirmar a vida e a liberdade. Em contrapartida, abrir o caminho da liberdade, segundo Octavio Paz, andar em direção à morte: “viver no agora é viver com o rosto voltado para a morte”. Na opinião do crítico e poeta, o homem se enganou profundamente quando inventou conceitos abstratos como a eternidade ou futuro como forma de fugir da morte, porque o próprio agora dá ao ser humano a consciência da finitude do sujeito. “Apenas diante da morte nossa vida é realmente vida” (Paz, p. 198).

Mesmo na fase experimental, quando apropria-se de técnicas das vanguardas formalistas, valorizando a materialidade da palavra, para explorar novas imagens e provocar sensações inusitadas, as criações de Torquato trazem marcas de um caminho pessoal. Um dos exemplos mais completos dessa poética é a composição de quatro poemas, construídos como se fossem um peça musical. Uma peça que inclui até o contexto de uma apresentação, já que o título geral é Arena a: festivaia – gb. No quarto poema que compõe a série, solo femenino casto/profissional, por exemplo alia o rigor construtivo formal à expressividade emocional do poeta:

 

desafinar o coro dos contentes

desde o final

despentear todos os dentes

desafinar

desparamar principalmente os dentes

pen / DURADOS

afferrollhharr o corpo do indecente

sim

& afe / rir

arrebentar a folha na semente

a FERRO olhar &

&

arrebentar

principalmente o deste

              (AMOR)

               o dente

               MAL

sangrando,  sim                & sim

 

O texto traz em seu bojo as repercussões da fragmentação interior, acompanhada de inquietação existencial e agonia físico-psicológica, o que transparece nos recursos visuais e sonoros. A repetição exaustiva do estrato fônico, por meio da aliteração (des) nas formas verbais infinitivas, explicita a necessidade de rupturas e de aberturas sem limites.

A busca de expansão semântica é visível no sugestivo jogo sonoro significante/significado. Essas tensões entre o corpo da palavra e o conteúdo podem ser relacionadas às propostas de liberação do comportamento e da linguagem, que caracterizam a geração de Torquato Neto. Essas tensões revelam a luta para escancarar as emoções, desmantelando estruturas estabelecidas. Relacionada à temática fundamental do poema, essa proposta de comportamento seria a maneira de “desafinar o coro dos contentes”.

A fragmentação do “eu” é mostrada no próprio significante, pelo jogo de linguagem que instaura, a partir das ambigüidades, novos sentidos: (“afe/rir”, “a FERRO olhar”). Muito significativo também é o impacto visual causado pela utilização tipográfica das letras maiúsculas em “dentes/pen/DURADOS”, quesugere leituras como “dedurados”, palavra que, conjugada com “a FERRO olhar”, faz referência ao contexto político pós-68.

A desagregação interior do poeta e a dissolução de sua identidade estão presentes na própria linguagem, desestruturada em todos os níveis: semântico, sintático e lexical. Nas fraturas dos versos, Torquato reescreve a agressão física sofrida pelo indivíduo, “sangrando” a palavra poética que ganha vários recortes no corpo do poema.

A articulação do espaço em branco com a fratura das palavras constitui um dos procedimentos técnicos predominantes nos poemas de Torquato. A reiteração do sintagma “eu sou” conduz a um mergulho do sujeito lírico em sua consciência, em busca de reconhecimento do que representa o “eu” para si mesmo, como no poema “solista com alaúde e fogo”:

 

eu sou                                       terrível        desa

                                                 pareço

eu sou                                      horrível        não compro:

                                                    mato

eu sou incrível?                                            cravina &

                                                    greta

                                                   EU

sou                                             o

                                                  FIM

da picada

 

No jogo de associações, o eu lírico se define por palavras de forte teor semântico:“cravina & greta”. Duas imagens diferentes, porém, carregadas de sugestões ambíguas. A primeira, “cravina”, (forma sincopada de carabina) sugere imagem de fúria, de defesa - arma de fogo - ou ainda, multiplicando as ambigüidades, pode ser uma pequena flor. Em “greta”, o sujeito reforça a opção por uma atitude marginal, reafirmando a opção por viver em espaços pequenos, pelas brechas, pelas fendas do sistema.

O poeta emite a voz de um euque abre espaço para suas angústias e seus paradoxos. Explorando a carga semântica em seus aspectos gráfico-espacial e sonoro, Torquato reitera a temática de forte carga narcísica, o que permite tomar sua obra como paradigma dos poetas “desencontrários”, assim definidos por Raúl Antelo alguns poetas brasileiros que fazem parte da antologia de mesmo título, como Duda Machado, Paulo Leminski, Régis Bonvincino e Arnaldo Antunes.

 

Os poetas desencontrários sentem-se atraídos pela linguagem do fora, desaforo não ligado a uma presença, mas à ausência de uma ausência. Um tal discurso nômade procura um espaço onde o novo venha a ser outro. .... Desenraizados, para eles, e conforme à melhor tradição pau-brasil, o sujeito lírico é um passante arlequinal e hermafrodita sem referências fixas e, portanto, desgeograficado, como herói-sem-caráter, fundindo nele próprio o espírito dos lugares que atravessa. Trata-se de um ser que passa por relações ... catastróficas, flexões ou simples pré-posições de sua fala. ... Seu lugar é o entre. (Antelo, 1995, p. 11)

 

A experiência-limite de Torquato situa-se na fronteira entre a construção e o desregramento, entre o princípio racional da linguagem e o caos, entre a biografia e o literário, entre o texto e o contexto, entre a relação visceral com a escrita e o próprio corpo, entre a loucura e a consciência, entre o estilhaçamento do eu e a construção dos textos poéticos, entre a utopia e o desencanto de estar no mundo.

Torquato faz poesia como se ele próprio fosse o corpo do poema (Salomão 1993, p. 70), articulando sujeito e objeto, arte e vida. A sua morte, planejada para o dia de seu aniversário, 10 de novembro de 72, quando completou 28 anos, pode ser lida como o seu gesto poético mais radical, indissociável da leitura de seus textos. A respeito das fortes sugestões de suicídio em sua obra, o poeta Waly Salomão faz um comentário elucidativo: “Muitas vezes escrever um livro ou fazer um filme representa adiar um suicídio, mas no caso de Torquato Neto pode-se afirmar que o suicídio precedeu e originou a “obra” (1995, p. 13). De fato, após o ato radical do suicídio foi possível rever retrospectivamente a sua obra e perceber a conjunção vida e arte.

O anjo torto da tropicália filia-se à tradição dos dissidentes libertários, espíritos românticos e rebeldes, que buscam uma maneira singular para expressar seu inconformismo e seu estar no mundo. Optando por viver em zonas de limite, espaços de riscos, na linha de fronteira entre a vida e a morte, nenhum emblema traduz tão bem o comportamento de Torquato como o do vampiro. Ao encarnar a figura lendária, no filme Nosferato no Brasil, (1971)de Ivan Cardoso, a imagem do herói maldito, como vampiro cabeludo e encapotado ficou tão amalgamada a sua persona a ponto de tornar-se a imagem emblemática do artista transgressor. Haroldo de Campos traduz bem essa fusão quase total de sujeito-objeto no poema “nosferatu: nós/.torquato[1].

Desde Bram Stoker, com o seu imortal Drácula, passando por Goethe, Coleridge, Byron, muitos escritores encontraram na imagem do vampiro uma metáfora para expressar o lado obscuro da consciência humana. Mas Torquato não se contentou em representar ou criar uma personagem. Ele se fez personagem de si próprio. Fez do mito vampírico seu modo de vida. Christopher Lasch ao discutir a compreensão da metáfora vampírica e seu significado na cultura contemporânea, chama a atenção para o significado do vazio interior, o desejo por nutridores emocionais que podem evitar a desintegração do eu. Esse vazio interior, também presente na poesia vampiresca de Torquato, pode ser reconhecido em versos como:

 

Você olha nos meus olhos e não vê nada,

É assim mesmo que eu quero ser olhado.

 

Além da opção por padrões rebeldes e alternativos de comportamento, o mito do vampiro também deve ser lido, na obra torquatiana, pelo caráter de ambivalência. O desejo de morte, de autodestruição coexiste com o compulsivo desejo de permanecer vivo, de imortalidade. No poeta essa ambivalência entre viver e morrer transparece no poema Todo dia é dia D, um canto paradoxal à morte e à vida:

 

Todo dia é dia dela

Pode ser, pode não ser

Abro a porta e a janela

Todo dia é dia D

..........................................

todo dia santo dia

queremos, quero viver

meu coração na bacia

todo dia é dia D

 

O eu lírico revela uma tensão resultante do desejo de transitar entre as pulsões de vida e pulsões de morte, como se pudesse escolher o seu “dia D”.

Na opinião de André Bueno, quando se tornou historicamente impossível para Torquato Neto resolver entre “trair” e “cumprir a sua missão”, o poeta resolveu a contradição com o próprio corpo (1983, p. 135). O que não significa a afirmação de uma fraqueza, fragilidade, mas antes um ato ainda mais radical de negação, pela agressão ao próprio corpo.

Do mito vampiresco, na tela e na vida, desdobra-se a metáfora do escorpião, pertencente à mesma matriz de rebeldia e autodestruição. Nascido sob o signo de escorpião, o próprio rescreve em versos o rito de morte do animal que, ao mesmo tempo mata e se suicida com o próprio veneno, quando se vê sem saída, fechado num círculo de fogo:

 

... um escorpião encravado

na sua própria ferida

não escapa; só escapo pela porta de saída

 

Nesses versos, o poeta faz uma variação sobre o mesmo tema, confirmando, como sina, a obsessão em metamorfosear-se em objeto e sujeito do poema. No último verso, Torquato faz a perfeita união entre o escorpião e o eu lírico. Ao dizer que o escorpião não escaba, ele insere-se no poema, incorporando poesia e vida de forma trágica. “só escapo pela porta de saída”.

Acuado pelo contexto interno e externo, Torquato concretiza o gesto do escorpião, inscrevendo no próprio corpo as marcas da poesia e registrando na linguagem poética o dilaceramento do corpo. A sua morte, foi sem dúvida, o mais trágico poema que escreveu.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

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SOUZA, Tárik. Torquato Neto: o vôo de fogo do poeta terminal. Anexo ao disco O poeta desfolha a bandeira, da Polygram.



[1] Poema de 10 de jan. de 1974, publicado na 2a ed. de Últimos dias de Paupéria e na seção “biografemas in memória do livro A educação dos cinco sentidos. São Paulo, Brasiliense, 1995